Relacionamentos: viver numa montanha-russa emocional

Por Dzogchen Ponlop in Huffington Post | 7 de julho de 2010 |  ler o artigo original

Uma das melhores formas de vermos como andamos a gerir as a emoções – ou como é que elas nos estão a gerir a nós – é observando as nossas relações mais intimas. É nessas relações que está o nosso coração e, por isso, onde a fasquia está mais elevada. O relacionamento pode ser com o nosso esposo ou companheiro, com o nosso filho, pai, irmão ou amigo – não importa. Se realmente nos importamos com essa pessoa, é aí que está o nosso coração.

Mas o que é uma emoção, afinal? O que é que nós estamos a tentar gerir? Assumimos que sabemos. Somos atingidos por uma onda de energia e podemos pensar, “uau, estou mesmo zangado”. O nosso filho adolescente destruiu o carro (mas não se magoou), ou a nossa melhor amiga roubou-nos o namorado, ou então um pai que fez a nossa vida difícil morreu de repente. Mas antes de decidirmos sobre o que é essa emoção forte que estamos a sentir, durante uma fração de segundo, tudo pára. Ficamos em estado de alerta. O coração bate rapidamente, estamos bem despertos e conscientes, mas não estamos a pensar. É como o momento imediatamente anterior a uma barragem explodir. Depois então a energia começa a circular, juntamente com um fluxo intenso de pensamentos. Podemos chamar-lhe “raiva” (porque temos que lhe dar algum nome). Mas no fundo do nosso coração, nós sabemos que estamos a sentir também outras coisas: tristeza, alívio, medo, ressentimento, inveja, e por aí fora. Estamos perante um largo conjunto de sentimentos, mas nós colocamos um rótulo em cima de todos eles.

Uma vez que a emoção explode e transborda, tudo pode estar perdido. Fomos apanhados pelo impulso e perdemos o contato com o bom senso. Muitas vezes dizemos ou fazemos coisas das quais nos arrependemos mais tarde, e por isso acabamos temendo as nossas próprias emoções. Se sentirmos raiva em relação ao nosso companheiro, por exemplo, podemos entrar em pânico e esforçarmo-nos para a suprimir ou livrarmo-nos dela rapidamente. Quando tal acontece, é possível que nós acabemos por dirigir a raiva para nós próprios ou então canalizá-la para um alvo inocente – um colega de trabalho, um filho, ou o animal de estimação da família. Ou então podemos até ser bem-sucedidos a manter a nossa mente irritada quieta durante algumas semanas, mas depois um dia acabamos por explodir sem razão aparente. Quando o episódio termina, nós estamos exaustos, mas não temos necessariamente maior clareza sobre o que aconteceu e o seu motivo. E isso acontece porque não houve entendimento do sucedido, nem uma resolução, simplesmente sementes ficaram plantadas para futuros episódios semelhantes a este.

Por outro lado, temos a possibilidade de aproveitar esta energia. Pode ser entusiasmante ceder aos impulsos e deixar as nossas emoções correrem de forma selvagem. Experienciamos uma breve sensação de liberdade e de estar em controlo da situação. Estamos a agir e a expressar-nos! Podemos ter sorte, ganhar a discussão e a namorada, por assim dizer, ou podemos ter azar e causar um resultado catastrófico.

Em ambos os casos, ao tentarmos ter controlo sobre nós próprios lutando contra as nossas emoções, vamos acabar por viver numa autêntica montanha-russa. Ela vai levar-nos para um lugar bem alto, onde as vistas são bem bonitas – mas depois leva-nos também numa descida bem acentuada, que é quando começamos a gritar. Mas o passeio ainda não acabou. Enquanto a viagem continua, andamos de cabeça para baixo, rolamos sobre nós próprios, e só depois voltamos a subir. O problema é que os nossos estados emocionais duram muito mais do que um mero passeio numa montanha-russa, onde gritamos e depois tudo acaba. Mas quando ficamos presos repetidas vezes nos nossos padrões emocionais, compulsivos e neuróticos, então simplesmente gritamos continuamente.

Viver com Coragem

Se estivermos um pouco mais aptos para lidar com as nossas emoções, então podemos identificar a nossa raiva, inveja, etc., num momento anterior a reagirmos. Podemos simplesmente olhar para ela. Em vez de bloqueá-la ou alimentá-la, podemos explorar, tomar alguns minutos para sentir a sua textura e observar. Nesses momentos, podemos também refletir sobre as nossas reações habituais e os seus resultados. Depois disso, então estamos preparados para olhar para dentro e dizer: “vou usar esta energia poderosa para fazer algo positivo. Em vez de me sentir miserável, experiência comum quando estou chateado, vou usar esta força para enfrentar os meus medos”. Quando tomamos um instante para olhar para as nossas emoções com consciência, então somos capazes de interromper a sua força. Desaceleramos a montanha-russa e descobrimos novas formas de trabalhar com essa energia. Leva algum tempo até sentirmos que estamos nós a conduzir, em vez de sermos conduzidos, mas gradualmente podemos começar a confiar em nós próprios e nas nossas emoções. Não temos medo dos altos e baixos, porque deixamos de sentir que estamos à sua mercê.

É possível olhar para uma emoção de uma forma fresca, sem preconceitos ou julgamentos. Se estivermos conscientes dessa emoção, então podemos imediatamente atribuir-lhe um nome como “raiva”, “inveja”, ou o que nós acharmos que estamos a sentir. Mas se desenvolvermos esta habilidade de explorá-la durante alguns instantes antes de reagirmos, então vamos descobrir que esta mesma “mente emocional” – aquela que nos leva para cima, para baixo, e que nos dá nós no estômago – é também uma fonte de criatividade, coragem e compaixão. Se formos capazes de fazer as pazes com isso, então estaremos em condições de dar um passo em frente numa relação que até ao momento não conseguíamos. Podemos encontrar uma forma de nos relacionamos num nível mais profundo, de intimidade e confiança: “vou ser honesto comigo mesmo e com a minha companheira, isto é o que tem estado a faltar na nossa relação”. Nesse caso, então a raiva ajuda-nos a ver as coisas com maior clareza e a ultrapassar a ansiedade, em vez de a piorar.

As emoções podem ajudar-nos a despertar, ou podem empurrar-nos para um estado de pura confusão. Podemos ter um insight que transforma a nossa vida, ou podemos destruir os que já tivemos. Se nos sentimos vitimizados ou empoderados pelas nossas emoções, isso depende da forma como trabalhamos com elas no dia-a-dia. Apesar de tipicamente pensarmos numa emoção como um estado mental perturbador, as emoções em si mesmas não são positivas nem negativas. Elas são simplesmente a energia criativa e poderosa da mente que está sempre presente de alguma forma. Mesmo as emoções mais neuróticas podem inspirar música, arte e outras expressões com profundo significado. Podemos entrar em contato com essa fonte de criatividade, temos o potencial para ir além desta energia impulsiva que resulta das nossas experiências emocionais comuns, para experimentar um novo nível de abertura, de paz interiorSurge então uma sensação de clareza, alegria, que podemos começar a partilhar de forma natural com os outros.

Tradução para Português por Catarina Távora

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