Porque é que eu devo meditar?

Por Matthieu Ricard em Lion’s Roar | 29 de abril de 2017 |  ler o artigo original

Matthieu Ricard responde à primeira questão de toda a gente.

Photos by Liza Matthews.

Pense de forma honesta sobre si. Onde é que está na sua vida? Quais é que têm sido as suas prioridades até agora e o que é que pretende fazer com o tempo que tem pela frente? Nós somos uma mistura de luz e sombras, de boas qualidades e aspetos a melhorar. Será que somos realmente o melhor que podemos ser? Será que temos de ficar iguais ao que somos hoje em dia? Se não for assim, o que é que podemos fazer para nos melhorarmos a nós próprios? Estas são questões que vale a pena colocarmos, sobretudo se chegarmos à conclusão que a mudança é desejável, e possível.

Todos nós temos uma mente e todos nós podemos desenvolver a nossa mente.

No mundo moderno, estamos consumidos de manhã à noite por um sem fim de atividades. Não temos muito tempo ou energia para considerar as causas básicas da nossa felicidade ou sofrimento. Imaginamos, mais ou menos conscientemente, que se estivermos ainda mais ativos teremos mais atividades intensas e, portanto, o nosso sentimento de insatisfação irá desaparecer. Mas a verdade é que muitos de nós continuam a sentir-se desiludidos e frustrados pelo nosso estilo de vida contemporâneo.

O objetivo da meditação é transformar a nossa mente. Esse processo não tem que estar associado a nenhuma religião em particular. Todos nós temos uma mente e todos nós podemos desenvolver a nossa mente.

É possível mudar?

A verdadeira questão não é se a mudança é desejável; é se é possível. Algumas pessoas simplesmente pensam que não podem mudar, porque as suas emoções destrutivas estão tão intimamente associadas às suas mentes, que lhes parece impossível livrarem-se delas sem destruírem uma parte de si próprios.

É verdade que, em geral, o carácter de uma pessoa não muda muito ao longo da sua vida. Se nós pudéssemos estudar um mesmo grupo de pessoas durante um período longo, analisando-os com alguns anos de intervalo, raramente encontraríamos um grupo de pessoas zangadas que se tinham tornado pacientes, um grupo de pessoas mais perturbadas que tinham encontrado mais paz interior, ou um grupo de pessoas mais pretensiosas que tinham aprendido humildade. Mas por muito raras que essas situações possam ser, algumas pessoas na realidade mudam, o que demonstra que a mudança é possível. O ponto é o de que os nossos traços de carácter mais negativos tendem a persistir se nós não fizermos nada para mudarmos o status quo. Nenhuma mudança acontece se nós simplesmente deixarmos as nossas tendências e padrões automáticos de pensamento perpetuarem-se, e mesmo reforçarem-se a si próprios, pensamento após pensamento, dia após dia, ano após ano. Mas estas tendências e padrões podem ser desafiados.

Nenhuma mudança acontece se nós simplesmente deixarmos as nossas tendências e padrões automáticos de pensamento perpetuarem e mesmo reforçarem-se a si próprios, pensamento após pensamento, dia após dia, ano após ano.

Agressividade, ganância, inveja e outras emoções destrutivas são inquestionavelmente parte de nós, mas serão uma parte intrínseca, inalienável? Não necessariamente. Por exemplo, um copo de água pode conter cianeto, o que nos poderia matar imediatamente. Mas a mesma água pode ser misturada com um medicamento que nos cure. Em qualquer um destes casos, H20, a fórmula química da própria água, permanece inalterada; em si mesmo, ela nunca foi venenosa nem medicinal. Os diferentes estados da água são temporários e dependem de situações que vão mudando. De igual forma, as nossas emoções, estados de espírito e carácter são elementos da nossa natureza, que são temporários e circunstanciais.

Um aspeto fundamental da consciência

Esta qualidade temporal e circunstancial torna-se clara para nós, quando percebemos que a qualidade primária da natureza da consciência é a de simplesmente conhecer. Tal como a água no exemplo anterior, o ato de conhecer, ou a consciência em si mesma, não é boa nem má em si mesma. Se olharmos por detrás da corrente turbulenta de pensamentos e emoções efémeros que passam pela nossa mente durante dia e noite, encontraremos sempre este aspeto fundamental da nossa consciência. A consciência torna possível nós percecionarmos todo o tipo de fenómenos. O Budismo descreve esta qualidade cognitiva básica da mente como luminosa, porque ela ilumina tanto o mundo exterior através das perceções, como o mundo interior das nossas sensações, emoções, raciocínios, memórias, esperanças e medos.

Apesar de esta faculdade cognitiva estar subjacente a cada evento mental, ela em si mesma não é afetada por nenhum destes eventos. Um raio de luz pode iluminar uma cara marcada pelo ódio ou uma cara sorridente; pode iluminar uma joia ou um monte de lixo, mas a luz, em si mesma, não é má nem carinhosa, suja nem limpa. Entender que a natureza essencial da consciência é neutral demonstra-nos que é possível mudar o nosso universo mental. Nós podemos transformar o conteúdo dos nossos pensamentos e das nossas experiências. O pano de fundo neutral e luminoso da nossa consciência dá-nos o espaço de que necessitamos para observar eventos mentais, em vez de estarmos à sua mercê. Ficamos também com o espaço para criar as condições necessárias para transformarmos estes eventos mentais.

Não basta querermos

Nós não temos nenhuma escolha sobre quem já somos, mas nós podemos desejar mudarmo-nos a nós próprios. Tal aspiração dá à mente um sentido. Mas não basta querermos. Nós temos de encontrar uma forma de pôr esse desejo em ação.

Nós não achamos nada estranho demorarmos anos a aprender a andar, ler ou escrever, ou desenvolver competências profissionais. Passamos horas a fazer exercício físico para pormos os nossos corpos em forma. Às vezes despendemos imensa energia física a pedalar numa bicicleta estacionária. Sustentar tais tarefas requere um mínimo de interesse e entusiasmo. Esta interesse vem de acreditarmos que estes esforços vão beneficiar-nos no longo prazo.

Trabalhar com a mente segue a mesma lógica. Como é que a mente poderia mudar, sem qualquer esforço, apenas por querermos que isso aconteça? Isto não faz mais sentido do que esperar aprender a tocar uma sonata de Mozart, simplesmente por brincarmos no piano de vez em quando.

Se nós transformarmos a nossa experiência de percecionar as coisas, transformamos a qualidade das nossas vidas.

Nós aplicamos imenso esforço para melhorar as condições externas das nossas vidas, mas no final de contas, é sempre a mente que cria a nossa experiência do mundo e transforma esta experiência em bem-estar ou sofrimento.

Se nós transformarmos a nossa experiência de percecionar as coisas, transformamos a qualidade das nossas vidas. É este tipo de transformação que acontece como consequência de treinarmos da mente, o processo também conhecido como meditação.

O que é a meditação?

A meditação é uma prática que torna possível cultivar e desenvolver certas qualidades humanas básicas, muito da mesma forma que outros tipos de treino tornam possível tocar um instrumento musical ou adquirir outras competências.

Entre várias palavras Asiáticas que se podem traduzir como ‘meditação’ em português, bhavana é uma palavra em sânscrito que significa ‘cultivar’, e o seu equivalente tibetano, gom, significa ‘tornar-se familiar com’. A meditação ajuda-nos então a nos tornarmos familiares com uma forma clara e precisa de ver as coisas, e a cultivar qualidades benéficas que permanecem dormentes em nós, a menos que façamos um esforço para as despertar.

Então comecemos por nos perguntar a nós próprios, “O que é que eu realmente quero da vida? Sinto-me bem em simplesmente ir improvisando dia-a-dia? Vou ignorar o vago sentimento de descontentamento que eu sinto sempre a um nível mais profundo, quando ao mesmo tempo, desejo um bem-estar e preenchimento também mais profundo?” Tornamo-nos habituados a pensar que os nossos defeitos são inevitáveis e que temos de suportar os contratempos que eles nos trouxeram ao longo da nossa vida. Nós tomamos por garantidos os aspetos disfuncionais da nossa vida, não nos apercebendo que é possível abandonar os ciclos viciosos de padrões de comportamento exaustivos.

De um ponto de vista Budista, os textos tradicionais dizem que cada ser tem o potencial para o despertar, com tanta certeza como uma semente de sésamo contém óleo. Apesar desse facto, usando outra comparação tradicional, nós vagueamos em confusão tal como um mendigo que é simultaneamente rico, mas não sabe que tem um tesouro escondido debaixo do chão da sua cabana. O objetivo do caminho Budista é ganhar a posse deste tesouro interno que tendemos a ignorar, e que pode dar o mais profundo sentido às nossas vidas.

Treinar a mente

O objeto da meditação é a mente. Neste momento, ela está simultaneamente confusa, agitada, rebelde, e sujeita a inúmeros condicionamentos e padrões automáticos. O objetivo da meditação não é desligar a mente ou anestesia-la, mas torna-la livre, lúcida e equilibrada.

De acordo com o Budismo, a mente não é uma entidade, mas antes um fluxo dinâmico de experiências, uma sucessão de momentos de consciência. Estas experiências são frequentemente marcadas por confusão e sofrimento, mas também podemos vivê-las num estado espaçoso de clareza e liberdade interna.

Treinarmos a nossa mente é crucial se queremos refinar e melhorar a nossa atenção, desenvolver equilíbrio emocional, paz interior e sabedoria; e cultivar a dedicação ao bem-estar de quem nos rodeia.

Todos nós sabemos bem, tal como nos recorda o mestre Tibetano contemporâneo Jigme Khyentse Rinpoche, “que não precisamos de treinar a mente para melhorar a nossa capacidade de nos chatearmos ou tornarmos invejosos. Não precisamos de um acelerador de raiva ou de um amplificador de orgulho.” Pelo contrário, treinarmos a nossa mente é crucial se queremos refinar e melhorar a nossa atenção, desenvolver equilíbrio emocional, paz interior e sabedoria; e cultivar a dedicação ao bem-estar de quem nos rodeia. Nós temos em nós mesmos o potencial para desenvolver estas qualidades, mas elas não se desenvolverão por si próprias, ou simplesmente porque nós queremos que isso aconteça. Este processo requer treino. E todo o treino requer perseverança e entusiamo, como mencionei. Nós não aprenderemos a fazer ski praticando 1 ou 2 minutos por mês.

Refinar a atenção e mindfulness

Galileu descobriu os anéis de Saturno depois de criar um telescópio que era suficientemente poderoso e tinha suficiente luz, e depois de o estabelecer num apoio estável. A sua descoberta não teria sido possível se este instrumento fosse inadequado ou se ele tivesse apoiado o telescópio numa base trémula. Da mesma forma, se pretendemos observar os mecanismos mais subtis da nossa mente a funcionar, e impactá-los, nós absolutamente precisamos de refinar os nossos poderes de introspeção. Para fazermos isso, a nossa atenção tem de estar muito refinada para que se possa tornar estável e clara. Depois seremos capazes de observar como é que a mente funciona e perceciona o mundo, e seremos capazes de entender a forma como os pensamentos se multiplicam por associação. Finalmente, seremos capazes de continuar a refinar a perceção da mente até chegamos a um ponto em que seremos capazes de ver o estado mais fundamental da nossa consciência, um estado perfeitamente lúcido e desperto que está sempre presente, mesmo na ausência das sequências normais de pensamentos em cadeia.

O que a meditação não é

Por vezes os praticantes de meditação são acusados de estarem demasiado focados neles próprios, de se afundarem numa introspeção egocêntrica e não se preocuparem com os outros. Mas nós não podemos ver como egoísta um processo cujo objetivo é eliminar a obsessão com o ego e cultivar altruísmo. Isto seria como culpar um estudante de medicina por passar vários anos a estudar medicina, antes de começar a exercer.

Existem um número de clichés comuns sobre a meditação. Deixem-me começar por notar que a meditação não é uma tentativa de esvaziar a mente ao bloquear os pensamentos – o que de qualquer forma, é impossível. Nem é também envolver a mente numa cogitação sem fim, numa tentativa de analisar o passado ou antecipar o futuro. Nem é um simples processo de relaxamento em que conflitos internos são temporariamente suspensos num estado de consciência vago e amorfo. Não há grande vantagem em descansar num estado interno atordoado. Existe na realidade um elemento de relaxamento na meditação, mas ele está relacionado com o alívio que vem de libertar esperanças e medos, dos apegos e caprichos do ego que nunca param de alimentar os nossos conflitos internos.

Um nível de mestria que nos liberta

A forma como lidamos com os nossos pensamentos na meditação não consiste em os bloquear ou alimentar indefinidamente, mas em os deixar surgir e dissolverem-se por si mesmos num espaço de mindfulness. Desta forma, eles não tomam conta da nossa mente. Além disso, a meditação consiste em cultivar uma nova forma de estar que não é sujeita aos padrões de pensamento habituais. Frequentemente ela começa com uma análise e depois continua com contemplação e transformação interna. Ser livre consiste em sermos o nosso próprio mestre. Não tem que ver com fazermos o que quer que seja surgir na nossa mente, mas antes em nos libertarmos das restrições e aflições que dominam e obscurecem a nossa mente. Tem que ver com tomarmos a nossa vida nas nossas mãos, em vez de a abandonarmos às tendências criadas pelo hábito e pela confusão mental. Em vez de libertarmos o leme e simplesmente deixarmos o barco à deriva para onde quer que seja que o vento sopre, liberdade significa definir um rumo em direção a um destino que nós escolhemos – o destino que é o mais desejável para nós próprios e para todos os outros.

O cerne da realidade

A meditação não consiste, como algumas pessoas pensam, em escapar à realidade. Pelo contrário, o seu objetivo consiste em permitir que nós possamos ver a realidade tal como ela é, mesmo no meio da nossa experiência, desmascarando as causas profundas do sofrimento, e dispersando a nossa confusão mental. Nós desenvolvemos um tipo de entendimento que vem de termos uma visão clara da realidade. Chegarmos a um entendimento que vem desta visão clara da realidade. Para chegarmos a este entendimento, nós meditamos, por exemplo, na interdependência de todos os fenómenos, na sua natureza transitória, e na não existência de um ego percebido como uma unidade sólida e independente.

Existe na realidade um elemento de relaxamento na meditação, mas ele está relacionado com o alívio que vem de libertar esperanças e medos, dos apegos e caprichos do ego que nunca param de alimentar os nossos conflitos internos.

Meditações sobre estes temas são baseadas na experiência de gerações de meditadores que dedicaram as suas vidas a observar os nossos padrões de pensamento automáticos e mecânicos, e a natureza da consciência. Eles de seguida ensinaram métodos empíricos para desenvolver clareza mental, vigilância, liberdade interior, amor altruísta e compaixão. Contudo, nós não podemos simplesmente confiar nas suas palavras e esperar que elas nos libertem do sofrimento. Nós temos de descobrir por nós próprios o valor dos métodos que estes sábios ensinaram e confirmar por nós próprios as conclusões a que eles chegaram. E este não é um processo meramente intelectual. O longo estudo da nossa experiência é necessário para redescobrir as suas respostas e integrá-las a um nível profundo. Este processo requer determinação, entusiamo e perseverança. Requer aquilo que Shantideva designou de “uma alegria em formas virtuosas.

Começamos então por observar e entender como é que os pensamentos se multiplicam por associação uns com os outros, criando um mundo de emoções, alegria e sofrimento. Depois penetramos este véu de pensamentos e temos um vislumbre da componente fundamental da consciência: a faculdade cognitiva primordial de onde todos os pensamentos surgem.

Libertar a ‘mente-macaco‘

Para alcançarmos esta tarefa, nós temos de começar por acalmar a nossa turbulenta mente. A nossa mente comporta-se como um macaco preso que, na sua agitação, se torna mais e mais preso nas cordas que o prendem.

Do vortex dos nossos pensamentos, as nossas emoções surgem, depois os nossos estados de espírito e comportamentos, e finalmente os nossos hábitos e traços de personalidade. Aquilo que surge espontaneamente não produz necessariamente bons resultados, pelo menos não mais do que atirar sementes contra o vento produz boas colheitas. Por isso nós temos de nos comportar como bons agricultores que preparam os seus campos antes de semearem as suas colheitas. Para nós, isto significa a importante tarefa de obter liberdade através do domínio da nossa mente.

Se consideramos que o potencial benefício da meditação consiste em nos dar uma nova experiência do mundo a cada momento das nossas vidas, então não parece excessivo passar pelo menos vinte minutos por dia a tentar conhecer as nossas mentes e a treiná-las neste tipo de abertura. A fruição da meditação poderia ser descrita como uma forma de estar otimizada, ou como felicidade genuína. Esta felicidade genuína e duradoura consiste num profundo sentimento de ter realizado o potencial máximo que temos dentro de nós para sabedoria e preenchimento. Trabalhar na direção deste tipo de preenchimento é uma aventura em que vale a pena embarcar.

Adaptado de “Porquê Meditar? Trabalhar com Pensamentos e Emoções”, de Matthieu Ricard, com permissão da editora Hay House.


Sobre Matthieu Ricard

Matthieu Ricard é um monge budista que tinha uma carreira promissora em genética celular antes de abandonar França há 35 anos atrás para estudar o Budismo nos Himalaias. Ele é um autor, tradutor e tem sido um participante na investigação científica sobre os efeitos que a meditação tem no cérebro. O trabalho de Ricard é altamente apreciado nos círculos intelectuais europeus, e os dois livros de sua coautoria, ‘O Monge e o Filósofo’ e ‘O Lótus e o Quantum’, são best-sellers em França. Ele vive no Tibete e no Nepal.

 

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