Meditação: descansar a mente ocupada

Por Dzogchen Ponlop in Huffington Post | 17 de novembro de 2011 |  ler o artigo original

Às vezes sentimo-nos irritados, mas esquecemo-nos do motivo. Podemos não estar certos da sua verdadeira razão, mas o nosso instinto diz-nos que o que estamos a sentir deve ter uma justificação e nós rapidamente agarramos essa ideia.

Começamos então a pensar em justificações para a nossa irritação: o nosso amigo que se esqueceu de ligar, insultou o nosso cão, atrasou-se para uma sessão de cinema, nunca paga a conta, e está constantemente a reclamar. De repente, temos inúmeras razões para estarmos irritados. A lista não tem fim. E isso anima-nos, a nossa mente fica satisfeita durante alguns momentos.

Se é raiva, paixão ou uma simples lista de afazeres, a mente parece estar constantemente envolvida nalguma atividade. Num instante, ela foge em direção a algo que vê no exterior e que deseja, no instante seguinte, recolhe-se e volta-se para dentro para um pensamento absorvente. Passado algum tempo regressa ao nosso amigo e à irritação que se vai tornando tão familiar. As nossas mentes estão sempre ocupadas a acompanhar isto e aquilo que acontece no nosso mundo externo e interno. É como ter um emprego e uma família – entre os dois, quase não há intervalo. Um pensamento leva a outro, e esse pensamento leva a um terceiro. A certa altura perdemo-nos e já não sabemos como chegamos a onde estamos. Quando a mente se move assim, é como água que está a ser agitada o tempo inteiro, nunca tem oportunidade de sossegar e ficar calma e límpida. Podemos até ter problemas em dormir porque a nossa mente não descansa.

Se tivermos noção de que a nossa mente está super ocupada e cheia de pensamentos, então a situação não é tão grave. No entanto, tipicamente não é esse o caso. Frequentemente nós fazemos malabarismo com cinco ou seis linhas de pensamento e com as emoções que as acompanham. Com tanta coisa a acontecer, a mente começa a ficar agitada e confusa. Não conseguimos ver com clareza o quão perturbadas as nossas mentes se tornam e também não conseguimos ver que não há nenhuma lógica na nossa confusão. Ainda assim, nós permanecemos diligentes e pacientes no que diz respeito a mantermos em mente muitos dos nossos pensamentos. Esforçamo-nos para os manter vivos, para manter um fluxo constante, e se este fluxo começa a esmorecer ou a abrandar, nós imediatamente empenhamo-nos em reavivá-lo. Até temos gadgets que nos ajudam a agarrar os pensamentos – tablets, iPhones, etc. – de forma a podermos gravar qualquer coisa. Está lá tudo: e-mails, mensagens, agendas e listas de compras. Isto não é necessariamente uma coisa má, mas com tudo isto a acontecer, é fácil perceber como a nossa mente nunca tem descanso.

O problema é que esta mente que está permanentemente ocupada começa a perder contato com a sua verdadeira natureza. Quando temos oportunidade de olhar para a camada que está por baixo de toda esta atividade, descobrimos uma sensação de espaço e consciência, paz e felicidade, que não muda de um momento para o outro. Está sempre lá, disponível, para nós. O Buda ensinou que essa é a verdadeira natureza das nossas mentes. Para voltarmos a ter contato com essa realidade, precisamos abrandar a velocidade e relaxar – soltar completamente toda a atividade e deixar a mente repousar. Daí surge a possibilidade de a mente se restabelecer, se acalmar e se voltar para o seu estado natural de paz e felicidade.

Mas como é que repousamos e relaxamos as nossas mentes? Existem inúmeras coisas que podem ajudar. Podemos nutrir e relaxar o nosso corpo com dietas saudáveis e exercício, especialmente yoga. Podemos fazer mais pausas, dar passeios, ouvir música e desconectar durante algum tempo do mundo da informação e da tecnologia. Mas o que mais poderá ajudar é a prática da meditação, onde, no início, nós apenas deixamos que a mente vá acompanhando o movimento da respiração. Este tipo de meditação é simples, pode ser praticada em qualquer lugar e tem um forte impacto no nosso bem-estar. Uma vez familiarizados com esta técnica simples, podemos depois começar a observar os nossos pensamentos.

A primeira coisa que vamos notar é a quantidade de pensamentos que surgem na nossa mente, como eles estão constantemente a mudar, e como ainda assim corremos atrás deles. A prática é notar quando a mente vagueia e trazê-la novamente para o presente, uma, e outra, e outra vez. A forma de regressar ao presente é soltando o pensamento que tiver capturado a nossa atenção. Ao notarmos que ele está lá, deixamos de o agarrar ou alimentar e assim interrompemos o fluxo de pensamentos, em vez de o encorajarmos. Surge uma sensação de alívio quando deixamos de ser arrastados pelos nossos pensamentos. E não importa se eles são positivos ou negativos. Se um pensamento positivo ou agradável surgir, não precisamos tentar melhorá-lo ou nos regozijarmos com ele; deixamos que ele se manifeste e se dissolva. E se um pensamento desagradável surgir, não deixamos que ele nos afete, nem tentamos bloqueá-lo ou transformá-lo. Podemos simplesmente deixá-lo estar.

Para realmente permitirmos que a nossa mente ocupada descanse durante a meditação, precisamos abandonar também os pensamentos sobre os nossos pensamentos. Adotamos uma postura de relaxamento que simplesmente observa a ida e vinda dos mesmos. Quanto mais relaxados estivermos, mais capazes seremos de ter contato com o espaço e a vastidão da nossa mente, com a sua qualidade desperta, para a qual temos estado mais ou menos cegos. Quando vemos este aspeto da nossa mente, estamos a ver aquilo a que o Buda chamou de o “potencial para estar desperto”, que todos nós temos.

O que isto significa é que nós podemos encontrar a felicidade e a paz interior neste exato momento, porque ele reside dentro de nós. Não temos que modificar os nossos pensamentos ou tornarmo-nos noutro tipo de pessoa. Não precisamos pensar que o que somos, este “eu”, não é bom o suficiente, inteligente o suficiente, ou sortudo o suficiente para ser feliz. Não temos que ser a Madre Theresa, o Bill Gates ou alguém que aparece na revista Vogue para sermos felizes. Se acreditarmos que sim, então não devemos seguir esse pensamento, podemos soltá-lo e deixá-lo ir como qualquer outro e descansar a nossa mente ocupada.

Tradução para Português por Catarina Távora

 

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