Como é que a meditação e a felicidade se relacionam?

Por Dzogchen Ponlop in Huffington Post | 9 de agosto de 2016 |  ler o artigo original

Todos queremos ter uma boa e revigorante noite de sono, acordar sentindo-nos bem e capazes de aproveitar o dia, todos queremos expressar o nosso amor, e ser amados, todos queremos que os nossos filhos prosperem e estejam bem, e todos queremos estar livres de preocupações com a nossa subsistência, saúde ou comunidade. Não há uma única pessoa no planeta que não queira tudo isto na sua vida. Todos nós queremos ser felizes.

Desde crianças que nos ensinam como atingir essa felicidade, dependendo de onde vivemos e da cultura em que crescemos, os métodos podem variar. Algumas comunidades dizem que devemos obedecer aos nossos pais, estudar arduamente e trabalhar para ser “alguém” – e assim seremos felizes. Algumas famílias enfatizam a importância de encontrar o parceiro perfeito, aquele que será capaz de nos amar, suportar e estar sempre lá para o que precisarmos – e então seremos felizes. Algumas sociedades dizem que ter imenso dinheiro, e inúmeras posses materiais é o nosso maior objetivo – e se conseguirmos, então seremos felizes.

Mas afinal porque é que isto não funciona? Porque é que nos sentimos mal o tempo inteiro, como se alguma coisa estivesse sempre em falta? Porque é que estes tipos de sucesso não nos satisfazem como era suposto? Depois de atingirmos os nossos objetivos – o parceiro amoroso, a casa bonita e tranquila, os recursos necessários para viajarmos, criarmos arte, encontrarmos o nosso trabalho perfeito, etc. – continuamos constantemente à procura da próxima coisa que realmente nos fará feliz. Quem sabe um carro mais rápido, uma barriga mais em forma, um diploma na faculdade ou uma subscrição da TV cabo com mais de 100 canais (apesar de nunca haver nada que valha a pena ver).

Conseguimos facilmente ver a insatisfação ao nosso redor, mesmo nos países mais desenvolvidos e ricos, nada é alguma vez suficiente. A sociedade ocidental, em particular, incentiva-nos a ter um sorriso bonito (por isso compramos aquela pasta dos dentes), a ter umas sapatilhas novas, ou a sermos reconhecidos com um prémio académico. E depois, assim nos garantem, vamos ser felizes.

Porque é que nada é bom o suficiente?

Nos Himalaias, onde eu cresci, as pessoas, no geral, são pobres, e possuem muito poucos recursos. Mas tal como as pessoas no Ocidente, têm aspirações, coisas que querem ter, lugares onde querem ir. Então, as pessoas descem das montanhas, mudam-se para a vila mais próxima e trabalham duramente em empregos que não lhes pagam bem, até que seja possível ter acesso a aquele apartamento mínimo, onde se pode pendurar uma imagem de Nova Iorque que se tirou de uma revista. “Um dia, eu vou para os Estados Unidos, vou viver em Nova Iorque e vou poder ter todas estas coisas bonitas que estão nas revistas”. Estas pessoas vivem sem electricidade ou água canalizada num apartamento minúsculo, e trabalham muitíssimo, mas acreditam que quando conseguirem ir para Nova Iorque, então vão ser felizes.

Entretanto, em Nova Iorque, as pessoas têm acesso a todas estas coisas, têm bons trabalhos, roupas da moda, e claro, têm um apartamento bonito com electricidade e água canalizada, possivelmente com porteiro e vista para o Central Park. Mas quando eu estava lá, tive oportunidade de conhecer inúmeras pessoas que mal podiam esperar para saírem o mais rapidamente possível, elas simplesmente odiavam morar em Nova Iorque. Normalmente planeavam viagens de campismo até ao parque nacional, ou então para uma floresta próxima, elas queriam aprender como é que se monta uma fogueira e se prepara a comida dessa forma, e tinham que levar consigo litros e litros de água, porque não há torneiras na floresta…

Então, parece que a felicidade não é algo que possamos ter neste momento, e por isso ela se torna num grande mistério… Se temos um apartamento, uma cama confortável, água canalizada, então felicidade não é ter isso, felicidade é acampar nas montanhas. Mas se estivermos acampados nas montanhas, então felicidade é estar na cidade.

Então aquilo que podemos concluir é que nós não estamos felizes com o que somos, e como tal não estamos felizes neste ou naquele lugar, com estas ou aquelas coisas. Uma vez que sejamos capazes de notar e interiorizar isto, podemos começar a trabalhar com a nossa mente, relaxando-a, e parando de estar exclusivamente focados no exterior. Se não tivermos algum tipo de influência na nossa mente, algum tipo de controlo ou maestria sobre os nossos pensamentos, então vamos experienciar a mesma infelicidade onde quer que vamos, quer seja a Nova Iorque, quer seja aos Himalaias.

Tornarmo-nos amigos da nossa mente: Meditação

Na tradição Budista, onde eu nasci e fui educado, e noutras tradições contemplativas, o método para sermos felizes depende das mudanças que formos capazes de fazer internamente, e não de circunstâncias externas que garantam contentamento. Então, esta mudança de perspetiva pode transformar um momento de sofrimento num momento de felicidade, porque não importa o que está a acontecer ao nosso redor, não importa a situação em que estamos inseridos. A melhor forma de mudarmos esta perspetiva é tornando-nos amigos da nossa mente, e para isso o primeiro requisito é conhecê-la muito bem.

Esses são os fundamentos da prática da meditação – e são também o resultado dela. Apesar de existirem inúmeras instruções sobre como meditar, uma forma simples de o fazer é sentarmo-nos em silêncio e observarmos os pensamentos e os movimentos da nossa mente. Sem alimentarmos a nossa compulsividade e habituais caprichos, e sem fazer julgamentos, simplesmente observamos os pensamentos que surgem e desaparecem na nossa mente, como nuvens que cruzam o céu azul. Não tentamos agarrá-los ou examiná-los, simplesmente testemunhamos a sua presença.

Com o passar do tempo, e com a prática, nós vamos ficando mais familiarizados com os conteúdos e hábitos da nossa mente, e quando eles surgem aparecem como velhos amigos. E nós sabemos que podemos confiar mais nuns do que noutros. Sabemos o que eles querem e onde nos vão levar se decidirmos segui-los – e vamos descobrir que nem sempre temos que o fazer. Podemos escolher o nosso caminho a partir deste ponto, sermos nós a guiar em vez de sermos guiados; tornamo-nos capazes de nos acalmar em vez de alimentar a agitação. A nossa mente será capaz de “nos ouvir” porque nós criámos uma relação próxima. Somos amigos que se ajudam e se suportam mutuamente.

O truque para transformar a nossa insatisfação em felicidade é aproveitar cada instante para trabalhar com a nossa mente. Não precisamos esperar por grandes coisas ou acontecimentos. Praticamos com as coisas simples, como por exemplo quando não encontramos o nosso bolo favorito na pastelaria. Se transformarmos a nossa desilusão nestas circunstâncias mais simples, então passo-a-passo, seremos capazes de transformar a nossa reacção perante acontecimentos mais exigentes. Se mudarmos a nossa experiência interna, a nossa mente, em vez de tentarmos alterar a circunstância externa, então poderemos ser verdadeiramente felizes.

Tradução para Português por Catarina Távora

 

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